O Complexo Industrial de Biotecnologia em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Cibs/Fiocruz), em construção, deve aumentar em cinco vezes a capacidade de produção do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz). As vacinas contra meningite, hepatite e tríplice bacteriana, que atualmente são importadas, vão passar a sair do polo no Distrito Industrial de Santa Cruz, na zona oeste do Rio de Janeiro. À produção, se juntarão também vacinas específicas para esquistossomose e hanseníase.

O Novo Centro de Processamento Final (NCPFI) ficará em uma área total de 580 mil metros quadrados (m²) e 334 mil m² de edificações.

Além das vacinas, o novo complexo deve ampliar a capacidade de produção de kits diagnósticos e biofármacos, que atendem o Programa Nacional de Imunização e o Sistema Único de Saúde (SUS), chegando a 120 milhões de frascos por ano.

Atualmente, o parque de Bio-Manguinhos, em Manguinhos, na zona norte da cidade, fabrica 35 produtos, com o excedente exportado para 74 países. A previsão para o novo complexo é de produzir vacinas para atender também demandas da América Latina e da África, bem como de órgãos internacionais como a Organização Mundial da Saúde (OMS), Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) e Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

Segundo o diretor da Bio-Manguinhos, Maurício Zuma, o complexo será o maior da América Latina e um dos maiores e mais modernos do mundo, dando ao país a prerrogativa de deixar de importar algumas vacinas e produzir outras que não despertam o interesse da indústria farmacêutica mundial.

“A gente vai poder não só incorporar novas vacinas, diminuir muito a importação, e fabricar vacinas para doenças negligenciadas, por exemplo. Temos projetos em desenvolvimento, mas não temos capacidade para produzir e ninguém se interessa em produzir. Lá [em Santa Cruz], vamos ter capacidade de colocar para produzir vacinas que são para minorias”, ressaltou Maurício Zuma.

Entre as vacinas que poderão ser produzidas no novo complexo, Zuma cita as de meningite, hepatite e tríplice bacteriana, que atualmente são importadas, e as para esquistossomose e hanseníase, que são vacinas terapêuticas para um público alvo menor.

Zuma destacou o caráter estratégico do complexo para o país. “Vai nos permitir ter um domínio tecnológico maior. A gente vai estar na fronteira do conhecimento em termos de produção, porque vamos utilizar tecnologia de ponta. Vai permitir ao Brasil ter uma sustentabilidade muito maior na produção de vacinas. O Programa Nacional de imunização vai poder atender bem melhor a nossa população”.

Projeto

O projeto do Cibs começou em 2011, com a busca do terreno e a elaboração do projeto conceitual, para depois adaptar o projeto executivo ao terreno conseguido. O diretor da Bio-Manguinhos disse que o local já se encontra pronto para receber as estruturas metálicas dos prédios.

“Fizemos duas fases da terraplanagem e adiantamos todo o estaqueamento dos prédios, as fundações e completamos com todo o coroamento dos blocos e cintas. Hoje, o terreno já está todo preparado, quando a gente começar a obra já será montando as estruturas metálicas”.

Segundo ele, a demora na construção se deve ao tamanho e complexidade do projeto. Os atrasos, segundo Zuma, também ocorreram devido à falta de continuidade nas políticas públicas. A Fiocruz é ligada ao Ministério da Saúde.

“A gente estava fazendo isso lá atrás, entrou o governo Temer, tiveram dois ministros, depois o governo Bolsonaro, já tivemos três ministros. Como é um projeto muito grande, a gente sempre tem que mostrar o projeto, passar toda a ideia, isso leva tempo. O que tem acontecido é quando o ministro está convencido da importância do projeto ele está saindo”.

O governo federal investiu até o momento R$ 700 milhões no Cibs. Zuma informou que a licitação do projeto será feita para uma construção sem recursos públicos, no modelo built to suit, ou seja, construção feita por um investidor privado sob medida para o usuário. O retorno financeiro se dará depois da conclusão da obra, com o pagamento de aluguel por um período de tempo determinado, previsto entre 15 anos e 20 anos. Depois disso, o patrimônio será incorporado à Fiocruz.

“É uma modalidade inovadora na administração pública e é conveniente porque, nessa crise de recursos, o Estado vai investir pouco no momento. Depois, a prestação do aluguel a gente vai pagar com recursos próprios, o valor vai estar embutido no custo dos nossos produtos. A gente fez um estudo de viabilidade econômica e já viu que dá para fazer isso. A própria produção do Cibs vai pagar o investimento”.

Segundo Zuma, o ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello, que visitou Bio-Manguinhos no dia 25 de maio, demonstrou interesse pelo projeto de Santa Cruz. “Nós tivemos a oportunidade de conversar com ele sobre as motivações para o projeto. Ele está bastante convencido, e eu acredito que muito em breve teremos a autorização ministerial para poder fazer a licitação”.

Na cerimônia dos 120 anos da Fiocruz, Pazuello disse que o Ministério da Saúde está comprometido com o complexo de Santa Cruz. No final do ano passado, o ministério anunciou que iria investir R$ 3 bilhões na construção do complexo.

Covid-19

O diretor da Bio-Manguinhos, Mauricio Zuma, disse que vacina para a covid-19, assim que estiver disponível, vai ser fabricada ela Fiocruz, antes mesmo do complexo de Santa Cruz ficar pronto. Uma equipe da Fiocruz de Minas Gerais trabalha no desenvolvimento da vacina com tecnologia brasileira, mas assim que ela estiver disponível no mercado internacional, o Brasil poderá importar a técnica.

“A gente tem bastante expectativa, estamos conversando com pelo menos quatro empresas para produzir uma vacina aqui e vamos escolher uma, a que chegar primeiro e a melhor se adequar às capacitações e instalações que nós temos. A gente espera até o final do ano estar com isso definido e, se possível, já começar a produzir a vacina para covid-19 nas nossas instalações”.

Mauricio Zuma acredita que o Brasil terá importância fundamental na fabricação da vacina para o novo coronavírus (covid-19) em apoio a toda a América Latina, como já ocorre com a vacina de febre amarela, já que apenas o México e Cuba têm plantas de produção de imunobiológicos na região, “porém muito pequenas”.

“Não tem vacina no mundo. O mundo não produz vacina para todo mundo. Então, um país como o nosso, continental, com mais de 210 milhões de habitantes, se a gente não tiver a nossa produção, corre o risco de ter problemas com as epidemias no país. A gente já vem falando isso há bastante tempo”.

Fonte: Agência Brasil